domingo, 29 de março de 2009

Os povos Indígenas em Sala de Aula

O prof Edson Hely Silva enviou-me um texto sobre uma questão de extrema importancia para a educação do país: A questão indigena, o índio, em sala de aula. Os povos indígenas sempre foram lembrados na escola, contudo, o problema é como são abordados; quê imagens, representações e estereótipos alimentamos, ou não, em nossos alunos e , nesse sentido, diante da aproximação da data oficial, o presente artigo é bem pertinente. Devido ao tamanho do texto tive que recortá-lo, mas creio que o principal está posto em discussão:
"HISTÓRIA, POVOS INDÍGENAS E EDUCAÇÃO:
(RE)CONHEÇENDO E DISCUTINDO A DIVERSIDADE CULTURAL

[texto apresentado como subsídio para debates no Seminário Povos indígenas em Pernambuco, promovido em 17 e 19/04/2007 pela SEDUC-PE, no Ginásio Pernambucano, em Recife-PE. Uma primeira versão desse texto foi apresentada na mesa-redonda “As relações étnico-raciais e de gênero no Ensino da História Escolar”, por ocasião do I Encontro Pernambucano de Ensino de História, promovido pelo Deptº de Métodos e Técnicas de Ensino/DMTE, em 17/03/07 no Centro de Educação/UFPE, Recife.]
O que sabemos sobre os índios no Brasil? A dúvida ou a resposta negativa a essa pergunta ainda é ouvida da imensa maioria da população, na escola e até mesmo na universidade. Os dados mais recentes contabilizam no Brasil 225 povos indígenas que falam cerca 180 línguas distintas. Os dados do IBGE/2005 apontam que em 10 anos, na década de 1990, a população indígena cresceu 150%! Passando de 234.000 mil para cerca de 734.000 indivíduos, que habitam todas as regiões do Brasil. Essa totalização talvez não tenha incluído os chamados índios isolados que vivem em algumas localidades da Região Norte, mas contabilizou significativos contingentes de índios que moram nas periferias urbanas próximas às aldeias e nas capitais, expulsos em sua grande maioria pelo avanço do latifúndio sobre as terras indígenas. De acordo ainda com as mesmas estimativas oficiais, no Nordeste moram 170.000 índios, mais de 20% da população indígena no país. Em Pernambuco é contabilizada atualmente uma população indígena em torno de 38.000 indivíduos (FUNASA/ SIASI, 2006); formada pelos povos Fulni-ô (Águas Belas), Xukuru do Ororubá (Pesqueira e Poção), Kapinawá (Ibimirim, Tupanatinga, Buíque), Kambiwá (Ibimirim), Pipipã (Floresta), Pankará (Carnaubeira da Penha), Atikum (Carnaubeira da Penha e Floresta), Tuxá (Inajá), Pankararu (Tacaratu, Petrolândia e Jatobá), Truká (Cabrobó) e os Pankauiká (Jatobá), estando esse último povo reivindicando o reconhecimento oficial.
O desconhecimento sobre a situação atual dos povos indígenas está associado basicamente à imagem do índio que é tradicionalmente veiculada pela mídia: um índio genérico com um biótipo formado por características correspondentes aos indivíduos de povos nativos habitantes na Região Amazônica e no Xingu, com cabelos lisos, pinturas corporais e abundantes adereços de penas, nus, moradores das florestas, de culturas exóticas, etc. Ou também imortalizados pela literatura romântica produzida no Século XIX, como nos livros de José de Alencar, onde são apresentados índios belos e ingênuos, ou valentes guerreiros e ameaçadores canibais, ou seja, “bárbaros, bons selvagens e heróis” (Silva, 1994).
Ainda nas universidades, de um modo geral, o índio é lembrado, afora o primeiro momento do “Descobrimento” em 1500, no início da Colonização. E nas escolas, no rosário das datas comemorativas, quando no “Dia do Índio” comumente as crianças, das primeiras séries do Ensino Fundamental, são enfeitadas e pintadas à semelhança de indígenas que habitam os Estados Unidos, e estimuladas a reproduzirem seus gritos de guerra!
Até recentemente nos estudos da História do Brasil, o lugar do índio era na “formação” da chamada nacionalidade brasileira. Depois de desaparecer nos textos sobre o “Descobrimento do Brasil” nos livros didáticos, o índio voltaria a ser lembrado nos estudos da Literatura da época do Romantismo no Brasil. O “índio” até bem pouco tempo estudado na História do Brasil ou em Estudos Sociais era único, “Tupi-Guarani” em todas as “tribos”, morava em “ocas” e “tabas”, era antropófago, preguiçoso e existente apenas no Xingu ou em remotas regiões do Norte do país.
A desinformação, os equívocos e os pré-conceitos motivam a violência cultural contra os povos indígenas. Resultado das idéias eurocêntricas de “civilização”, do etnocentrismo cultural e da concepção evolucionista da História, onde, no presente, os indígenas são classificados como “primitivos” possuidores de expressões culturais exóticas ou folclóricas ainda preservadas, mas que determinadas a serem engolidas pelo “progresso” da nossa sociedade capitalista.
Cabe ao/a professor/a de História, aos/as educadores/as de uma forma em geral, buscar superar tal situação, atualizando seus conhecimentos sobre os povos indígenas, para compreendê-los como sujeitos participantes na/da história, em uma perspectiva do (re)conhecimento que vivemos em um país pluricultural, plurilinguísitco e com uma sóciodiversidade enriquecida pelos povos indígenas. Para isso somos convidados/as a atualizar nossos conhecimentos, a partir das recentes discussões sobre o tema e a produção de subsídios didáticos que incorporam essas discussões.
[...]
Para uma outra abordagem da temática indígena no Ensino de História: superando equívocos, preconceitos e omissões.
A atual presença dos povos indígenas impõe a necessidade de repensar uma idéia da colonização como uma grande conquista de povos, pacíficos e subjugados, derrotados e massacrados. Além dos confrontos abertos, circunstancialmente foram elaboradas diversas estratégias de resistência, às vezes silenciosas, invisíveis, camufladas, tecidas ao longo de anos, que foram envolvendo os colonizadores. Enfim, uma derrota ainda que relativa, da colonização, pela capacidade histórica dos povos indígenas, em regiões como o Nordeste do Brasil, elaboraram diferentes estratégias de resistência, para a afirmação étnica e conquista do apoio da sociedade para o reconhecimento oficial, para a conquista e a garantia dos seus direitos.
As pesquisas e reflexões históricas que ora vem sendo realizadas sobre os povos indígenas no Nordeste, a partir de abordagens que incorporam as discussões interdisciplinares mais recentes, além de possibilitarem rever uma história linear, ufanista, como uma grande conquista, estão contribuindo para um maior conhecimento das relações coloniais. Onde os indígenas foram e são atores/ sujeitos, contribuindo também para compreensão do processo histórico de emergência étnica na Região e da atualidade dos povos indígenas no Nordeste.
Nos últimos anos, os povos indígenas no Nordeste, assim como em todo o Brasil fortaleceram suas organizações, intensificaram as mobilizações pelo reconhecimento étnico enquanto povos diferenciados, pela demarcação e retirada dos invasores de suas terras, pelas conquistas e garantia dos seus direitos a uma assistência de saúde e educação diferenciadas. Esses povos ocupam um inegável lugar no cenário político, obrigando-nos a rever a História, superar equívocos, preconceitos e omissões e a tradicional idéia errônea de uma homogeneidade cultural no Brasil. O Ensino de História deve incorporar essas discussões, ou do contrário continuará reproduzindo imagens ultrapassadas, descabidas e violentas sobre/ contra os povos indígenas.
A seguir estão sugestões a serem discutidas e implementadas no sentido de contribuir de forma efetiva com o fim dos equívocos, preconceitos e omissões no ensino sobre a temática indígena. Essas propostas devem estar baseadas antes de tudo nos esforços do conhecimento da situação em que vivem e a superação de toda e qualquer forma de discriminações contra os povos indígenas, bem como e pelo reconhecimento de seus direitos históricos:
· Incluir a temática indígena nas capacitações, estudos e treinamentos periódicos do professorado, a ser abordada na perspectiva da pluralidade cultural historicamente existente no Brasil e na sociedade em que vivemos: através de cursos, seminários, encontros de estudos específicos e interdisciplinares destinados ao professorado e demais trabalhadores/as em educação, com a participação de indígenas e assessoria de especialistas reconhecidos.
· Promover estudos específicos para que o professorado de História possa conhecer os povos indígenas no Brasil, possibilitando uma melhor abordagem ao tratar da temática indígena em sala de aula, particularmente nos municípios onde atualmente habitam povos indígenas.
· Estimular e apoiar professores/as que possuam interesses em aprofundar através de cursos de pós-graduação os estudos sobre os povos indígenas.
·Intensificar a produção, com assessoria de pesquisadores/as especialistas, de vídeos, cartilhas, subsídios didáticos sobre os povos indígenas para serem utilizados em sala de aula. Proporcionar o acesso a publicações: livros, periódicos, etc., como fonte de informação e pesquisa sobre os povos indígenas.
· Promover momentos de intercâmbios entre os povos indígenas e os estudantes durante o calendário letivo, através de visitas previamente preparadas do alunado às aldeias, bem como de indígenas às escolas. IMPORTANTE: ação a ser desenvolvida principalmente nos municípios onde atualmente moram os povos indígenas, como forma de buscar a superação dos preconceitos e as discriminações.
· Ampliar o “Dia do Índio” para uma “Semana dos Povos Indígenas”; a ser promovida com exposições de trabalhos e pesquisas interdisciplinares realizadas pelo alunado, exibição de vídeos, fotografias, debates com a participação de indígenas, estudiosos/as, instituições indigenistas, etc., como forma de proporcionar maior conhecimento sobre a situação e diversidade sociocultural dos povos indígenas.
· Discutir e propor o apoio aos povos indígenas, através do estímulo ao alunado, com a realização de abaixo-assinados, cartas às autoridades com denúncias e exigências de providências para as violências contra os povos indígenas, assassinatos de suas lideranças, etc. Estimulando assim através de manifestações coletivas na sala de aula, o apoio às campanhas de demarcação das terras e garantia dos direitos dos povos indígenas.
· Enfim, promover ações pautadas na perspectiva da diversidade cultural e dos direitos dos povos indígenas, bem como do reconhecimento de que o Brasil é um país pluricultural e pluriétnico".
Edson Hely Silva é Doutor em História Social pela UNICAMP. Mestre em História pela UFPE. Leciona História no CENTRO DE EDUCAÇÃO/Col. de Aplicação/UFPE. Pesquisador da história indígena em Pernambuco, com vários artigos publicados sobre o tema. Assessor para área de História na formação dos/as professores/as indígenas em Pernambuco e no Projeto PROFORMAÇÃO/MEC/SEDUC-PE. E-mail: edson.edsilva@gmail.com

5 comentários:

maria fro disse...

Bom texto Zélia, lembrando que há até mesmo legislação a respeito a 11645/08 assim como obrigada trazer para a sala de aula uma abordagem rica e sem preconceito da história e culturas africanas e afro-brasileiras, inclui no parágrafo 26A da LDB a obrigatoriedade do ensino da história e culturas indígenas sem reforço de estereótipos e preconceitos.
Tenho imenso orgulho de nos meus trabalhos não ter precisado de lei para saber e fazer um trabalho que dê destaque sem reforçar preconceitos tão aos povos indígenas como em relação aos povos africanos e a cultura afro-brasileira.
abraços
Conceição Oliveira

verabragam disse...

Oi Zélia. O texto de Edson Silva é muio sugestivo para pensarmos a diversidade social brasileira.Realmente os povos indígenas são vistos de forma simplista nos livros didáticos, dando a impressão muitas vezes que índio só dança e canta, pois é a forma mais representada da imagem do índio nos livros.As pesquisas, apontam para outra direção, assim como Edson Silva, outros pesquisadores mostram que os povos índigenas, continuam resistindo e mostrando que o Brasil é plural. Bem colocado esse texto.Abraços.Vera Braga.

Zélia Gominho disse...

Agradeço a participação de vocês; é importante que haja uma mobilização mais efetiva junto à sociedade, e principalmente junto a quem trabalha diretamente com o ensino; para que a formação das novas gerações seja mais de acordo com uma atitude de fato democrática e de respeito à diversidade cultural tão flagrante em nosso país.

ARAUJO JP disse...

Parabéns pelo seu trabalho enquanto educadora. Quando se fala em História, seja qual forma a linha de pesquisa, acredito que é de suma importância ter essa preocupação como você tem. Gostaria de manter contato. Trabalho nos Curso de Graduação em Educação - Pedagogia, bem como na Pós-g, nos curso de Geopolítica e História e outros. Como sou um leitor da história, muito embora não seja da Área descobri a importância de enfatizar a contribuição histórica em meu trabalho de tese em Educação Matemática – Proposta metodológica sob a ótica da pesquisação. Nele busquei fazer inicialmente um resgate histórico do ensino da matemática, numa linha do tempo e, pude observar que as ciências e não diferente, a Matemática surgiu dentro de espaço histórico sócio cultural, com observação a Entnomatemática entre outras tendências. Um abraço. E-mail. araujo2jp@hotmail.com.

Anônimo disse...

Muito bom o texto, me ajudou muito sobre o assunto, precisava dar uma aula e o texto ajudou. Parabéns!